A Arte do Feng Shui e a Globalização


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A história chinesa denota uma força cultural sem precedentes no mundo ocidental, fruto de evolução social, política e militar que durou milênios. Permeando e unindo tais bases, observava-se um surpreendente aspecto místico, soma de devoção religiosa e sabedoria transcendental. É interessante notar que nesse aspecto, essa “mitologia do vazio” remete a uma ancestralidade, no geral, construída sob influência de monges brilhantes, verdadeiros mestres do espírito. Tal conhecimento, entretanto, era inacessível às mentes do povo comum, que recebiam um mero resumo simbólico que facilmente se transformava em superstição.

O uso das técnicas metafísicas eram tão secretas e importantes que asseguravam o destino e manutenção de dinastias inteiras. Uma dessas técnicas se chamava Feng Shui, a Escola dos Ventos e das Águas, ou seja, a Arte do Bom Lugar. Projetar de maneira adequada uma residência ou até mesmo um túmulo poderia garantir excelente vida terrena e uma próspera continuidade genealógica.

Muitos livros considerados sagrados foram queimados durante a revolução cultural e os mestres que conseguiram escapar com vida se esconderam em pequenos vilarejos ou fugiram para o ocidente. Durante algum tempo, o misticismo chinês se tornou obscuro, e o pouco que se tinha notícia provinham das porcelanas Ming e da arte em seda.

Um dos aspectos da globalização pós-muro de Berlim foi o intercâmbio cultural. Quem vos escreve é um exemplo dessa integração de valores, um misto de criação oriental em terras brasileiras e de arquiteto moderno empenhado nas pesquisas das tradições chinesas do bem viver. Um sincretismo inusitado, sem dúvida. Em outras palavras, a sabedoria oculta foi sendo desvelada aos olhos fascinados e palavras como I Ching, Tai Chi, Chi Kung e Kong Fu eram facilmente reconhecidas nas linguagens latinas. Uma abertura que permitiu, ao ocidental, ter contato direto com os conceitos universais do Feng Shui propriamente dito e nas suas mais variadas técnicas e aplicações.

Muitos alunos e colegas de pesquisa perguntam-me o motivo de publicar “O Grande Livro do Feng Shui Clássico” (e, posteriormente, a minha obra mais recente, Feng Shui Clássico nos Novos Tempos) quando muitos outros já escreveram sobre o tema. Sempre me vem à lembrança, nesses instantes, o propósito de desenvolver algo sobre arquitetura e decoração chinesa antiga sob um outro aspecto, mais aprofundado, principalmente em tempos onde o esoterismo fácil e as crendices dão lugar às técnicas práticas, mas mescladas à pesquisa consciencial.

Assim sendo, a expressão comum “casa saudável” remete-se, nos dias de hoje, a uma visão holística, muito além de respostas rápidas, com isenção do morador e penduricalhos abstratos, como bolas de cristal e decoração com bambus. Nota-se, enfim, que o termo qualidade de vida se torna sinônimo de atuação global e compreensão dinâmica das energias do universo, cujo homem é aprendiz constante e parte fundamental. É necessário, por conseguinte, um posicionamento d´alma, algo inerente ao Ser enquanto existência e manifestação. E sobre isso, com absoluta certeza, o tradicional Feng Shui chinês tem muito a nos ensinar.

 

Por Marcos Murakami (artigo revisado em 2016)